quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

De súbito, a cidade se revelou.
Enquanto a natureza acabava de chorar comigo (é que choveu por dias... e dias... e dias... ) foram se dissolvendo os prédios. Que arrastavam os carros. Que arrastavam o Cinza. Que arrastava as Nuvens. E aí, Azul.
Dessa vez não foi só a calmaria momentânea que me serviu de combustível: há exato um ano sentia que faria uma escolha e como tudo até então havia sido tão natural e dado, eu não sabia bem que escolher era renunciar. Sabia que era belo, no máximo, ignorando que as coisas belas também doem nos outros. Por si mesmas.
Chovia consecutivamente, incessantemente. Desmancharam-se ruas, morreram gentes e só sobraram o que sentiam... e isso já era o anúncio. De que finalmente consegui conciliar o tempo de mim com o tempo do mundo e dado que agora o céu é límpido - ainda bem que alma é regenerável -, sou eu quem anuncio com orgulho: eu sou um corpo que finalmente ocupa sua própria época. Frenética, líquida... mas inquietude também cabe nesse corpo.
No exato agora eu sinto que farei escolhas pronta para renunciar.
E renuncio à idéia de plenitude requer tanto quanto dizem.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ai, Deus. Ou foi você ou fui eu quem sumiu por um tempo. E você sabe muito bem - melhor que eu - do que tenho sido devota a vida inteira, sabe que não foi de ti em seu ser mesmo, pois não há nada no mundo que eu considere alheio a você. Sabe bem da minha indignação diante das separações: como se houvesse todo um mundo para o qual você olha e guia sem integrá-lo, como se dois conjuntos-universo seguissem cada um a seu modo; o seu sendo o ditado e o nosso as letras, quando aquilo que tão vagamente chamados mundo dos homens se move dentro de ti, porque o é. Se houvesse essa divindade dissociada, a procuraria e ajoelharia e pediria perdão, porque esse absurdo que é um deus sozinho nos faz pedir a ele apenas os prazeres e os bens. E eu fui tão idiota, que esqueci a necessidade da morte momentânea e silenciosa ( e quem sabe até mais sofrida que aquela que tira o movimento do corpo dos outros) a qual, só compreendida a longo prazo, possibilita a retrospectiva da existência e a aceitação de que o mundo está exatamente como devia. Não por ser o jeito ideal, mas por ser exatamente o jeito que possibilita o retrospecto e a compreensão parcial, e que vem ressoando desde que o homem abrira os olhos, admirara-se, sentira, pensara, tentara, dizera - e nenhuma dessas coisas é tão diferente entre si.
Só queria ser um pouco maior para agradecer o sofrimento, mas ainda não. O máximo que consigo é aceitar minha morte e confessar que a dona do sumiço fui eu, num esforço para consertá-lo.
Quanto a você... você nasceu hoje mesmo? Por que você enche minha vida de números 16? Por que eu tenho 18 anos e nunca consegui aprender a andar de bicicleta? Plotino estava certo? Ou ser certeza e ser humano são as únicas coisas do universo que não se entrelaçam? Você reparou que me afastar de você foi parar de escrever? E que, seja no ato de me aproximar ou de fugir de você, toco o tipo de filosofia mais inocente que se fez?
Você sabia que eu pretendo chorar de alegria quando esse ano acabar?

E se é de dentro tudo que existe e em ti onde me circunscrevo, que continue a habitar o Eu sem desistir do meu. Então prometo que em breve sentiremos o vento bagunçando o cabelo, sobre um banco qualquer de bicicleta...

domingo, 19 de outubro de 2008

Tudo aquilo para enxergar: "Menina, pode chorar, que as pessoas ao redor se deixam engolir por aquilo que não entendem e amaldiçoam qualquer um que queira morrer tentando entender".
E a solidão de que falo desde sempre precisa encontrar uma glorificação da minha história rapidamente. Passadoepresente em mescla explodiram. Sou lava.

sábado, 16 de agosto de 2008

E eu? Qualquer coisa que não cinzas.
Não-saber soa como morte, e na verdade é o Existir latente. Aceito minha ignorância gradativamente pra me sentir menos só... funciona.
'Inda de maneira mais eficiente quando ela incomoda e tortura sutilmente. Eu busco. Qualquer coisa que não cinzas, qualquer coisa que agora só se mostre por sinais tortos e eu abraço qualquer divinidade sugerida e me agarro a tudo que não seja imposto, mas que seja capaz de fornecer esboços de respostas ainda assim.
Semana passada foi o fim de tarde que coloriu o céu de três tons de azul.
Hoje é o som das pessoas festejando lá fora e o fato de não me fazer sentido: se a vida couber num instante de batuques, que sejam dionisíacos.
Não são.
Hoje, é a minha quietude.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

6 meses depois

Agora há mais sombras que luz pela sala e não é ninguém que me invade. Quem se ocupa de mim é justamente o escuro, enquanto vontade e busca de uma outra claridade, sem vínculos físicos ilusórios-porque-solitários. Me move enquanto ânsia pelo que É. Dá certeza de que essa claridade se opõe por completo a si mesmo devido somente ao lugar onde a Ânsia borbulha. E quer saber?! Em mim, borbulha no corpo inteiro.
Escuro sempre foi causa de inquietação.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Pequena,

Isso é a coisa mais desconcertante do mundo. E de algum jeito eu sabia, sabia que quando tivesse de novo algo a dizer seria pra você. Nem que fosse só com sutilezas...
Desconcerta porque em outros tempos eu escreveria assim, à mão mesmo, páginas aos montes, até que ela ficasse vermelha. Entregaria pessoalmente, só pra você, num jeito de te dedicar o Vermelho em mim, afirmando por esse gesto que é só sua a compreensão do que a gente viveu até aqui. Como se o que a gente viveu fosse apenas nosso e ponto: .
Desconcerta e liberta afirmar que não. E escrevo pra quem quiser saber...
Flor, eu via a gente se refletindo uma na outra num acordo puro e aquilo envolvia até meu jeito de falar com os outros, quando falava sorrindo. Se eu te disse naquele domingo que precisava sempre recorrer ao passado pra qualquer manifestação de Alívio conseguir viver no agora, Flor, eu via a gente construindo um quebra-cabeças perfeito e as últimas peças estão quase encaixadas.
Não, não sinto, de forma alguma, que nossa história vá terminar: acordo puro, mútuo e tão lírico, que insinua eternidade sempre que você sobe o elevador do prédio, chegando ou indo. O que nossa história me fala, então, é que me guiei até você pra falar dos ciclos e construir pontes entre mim, você e aqueles dois. Pra te ceder um pouco de paz...
Agora eu entendo que você não foi embora antes pelo mesmo motivo. Eu acordava sempre sozinha e desacreditando, lembra?! É possível que não, porque você não me permitia desacreditar. Nossa história não termina e a gente é fração da mesma coisa.
E deixamos, juntas, de ser promessa pra ser Início (de qualquer coisa, sussurro por aí. E você é tão abrigo que dá para transcender - da promessa morta ao Início de qualquer coisa, desde que inquieta e musicada.)

sábado, 28 de junho de 2008

se não suporto mais gente que se esconde

vejo.
toco.
acho.
amo.
Vejo.
fim.

domingo, 15 de junho de 2008

Novidade

É que o mundo é um pouco maior que aparentava ser. E eu, mais criança.
Todo um medo em mim que me faz só observar. Fazer parte ... fazer parte ainda dói.
Querer fazer parte me quebra as pernas; como cabe tanta ousadia em alguém que nada fez? Nada além da vontade.
O contato com a possibilidade agora desconcerta; minha profundidade, fragmentos.
E eu. Cinzas?

terça-feira, 13 de maio de 2008

Tomada de humanidade,

digo que somos sim, na realidade, todos tão desamparados quanto eu me senti naquele dia.

[ e aí eu dou as mãos pr'alguém e seguro forte, assim, nem que seja uns segundos. as lágrimas saem pouquinho a pouquinho e um alívio instantâneo invade: é que estar tomada de humanidade também é cultivar esperança. distribuo por aí, em forma de suor e palavra...]

sábado, 3 de maio de 2008

É que eu só estou tentando ser mais, compreende?!
Um dia eu acordei e, que cause espantoounão, minha vontade ainda era maior que a dor. Ainda.
Continuo.

sábado, 5 de abril de 2008

Uma moça de all star porque é legal, um menino de all star porque ele gosta. Cotidiano filosófico - cresço.

- E você, tá lendo é o quê?
(Como se não tivesse sido uma maneira de interrupção de fluxo de tudo que sentia - e era tudo, era tudo... - virei pra ela a capa d' O Lustre)
- Adoro Clarice.
(Ela afirma. Não-fluxo.)
- Acabo um livro dela e já começo o outro.
(Ela não precisava saber disso...)
- Eu também.
(Será? Vivo um livro e o ciclo se expande no seguinte. Hesíodo! A ring composition dos gregos - tempo na palavra e tudo é circulo - sou eu de lis-no-peito: as primeiras palavras brotam de novo e maior. Retornam, retornam quando a essência pede, grudadas. Palavras para que o mundo se revele. E entrelinhas. Aqui basta. )
- Lihápoucopertodocoraçãoselvagemeeu... silêncio.
(
E se todos os teus risos histéricos fossem de verdade, e as suas palavras... se você me fosse real e se tua curiosidade fosse sentida até que latejasse, eu me enxergaria nos teus gestos enquanto fala e ah, flores-de-lis nos seriam como aureolas e um tridente.)


Vim aqui para não pertencer do jeito mais completo. Que o completo chege, que o "ser alheio a" já é.
Dor de leve.

~º~

- É, aqui não tem "A República" mais. Vamos ter que ir ao outro prédio.

(Outro prédio. Placa indicativa da biblioteca a nossa frente)

- Ih, mas onde é aquilo, hein?!
- Sei lá.

(Círculo de novo, descidas de escadas, visita involuntária e acidental ao Centro de Extensão da faculdade, mesmo lugar.)

- Mas tava aqui o tempo todo! A placa!

(Adentramos.)

- Acho que o livro deve tar por aqui.
- Por ali, não?!

(Enquanto não era em nenhum dos dois e eu esquecia a bolsa lá fora e ele não percebia)

Para PERTENCER do jeito mais intenso! Nos teus gestos, nos perdemos juntos... eu. A sutileza abraça a gente na próxima obra, no próximo encontro, quer ver?!

~º~

- Como vai a sua vida?
Abraço.

(Em cada visita à biblioteca - são mais quase quatro anos e vamos estar juntos, eu sempre soube - nos perderemos entre as prateleiras. Passarão os anos. Aristóteles, Kant, Heidegger ou nenhum. Nós dissolvidos em prateleiras. E se eu te dissesse o sorriso meu quando tem você à porta da sala? E quando vai embora mais cedo com aquela liberdade-ou-até-arrogância universitária que nos deixa levantar e sair antes de Heráclito acabar de unir seus opostos... parte de mim é submissa a ela e vai, vai junto.)

Vim aqui porque até o Muito é questionável. Olha isso...

(Eu amarraria teus cadarços...)

quinta-feira, 27 de março de 2008

desabafoporqueeuprecisavadizerassim: caos.

Precisava mudar minha vida. Mudei. Tudo me diz que a busca agora é outra, e é, mas ela se dissolveu pela cidade e se estou assim, perdida como nunca, é talvez por não tê-la encontrado nos lugares por onde passo e talvez isso seja por ela estar deveras evidente – tudo engana.
É que o que vejo nesses lugares é deslumbre – atravessar as avenidas é cumplicidade. Nunca sei a que horas devo ir através dos carros, e quando todo mundo vai, eu vou também e não morro. A pilha de carros com farol ligado no começo da noite, vista de cima, parece uma fileira de vaga-lumes e não uma pilha de gente que não queria estar ali. Estou encantada pela desordem, e me tornando mais e mais desordem, porque eu não sei o que faço da hora em que eu saio da aula até a noite, quando eu vou dançar. Supostamente, teria que ler Parmênides, na prática, morro um pouco até que prenda o cabelo e o mundo sinta que rodopio para não dissolver e para reconstituir o que se esvaiu até então. Meu conceito de tempo se perdeu tanto.
Pra mim sempre foi ciclo e quando vi que para eles também era, eu me rendi. Todavia, preciso da linearidade para não me atrasar – busca de conciliar o tempo do mundo com o meu, que também era o tempo antigo. E eu escorro pelos ponteiros.
Minha vida lá, cíclica até o absurdo, terminou com plena consciência do que eu era, do meu papel no mundo e que aquilo tudo era ARte. Intervenções artísticas em mim. Eu pegava a dança aqui de dentro e fazia fotografia, agia dentro do ritmo e tudo me entendia, porque esse tudo guardava uma complexidade sutil, que eu não sabia qual era, mas sabia que descobriria mais tarde. Era um ciclo onde isso bastava. E eu escorria pelo mistério.
Complexidade sutil jogada na cara, num apartamento no centro de Belo Horizonte, escancarada no devir. Ele não comporta minha professora de ballet que achava qualquer sacrifício que eu fazia bonito, ele não queria comportar a música que ouvi ontem no corredor – a mesma que ela dava no plié e port de brás – pra eu não ver que, sim: parte da minha alma mora dentro do piano de lá. Não comporta porque lágrimas são difíceis, sabemos todos. E, já que a vida é movimento para todos os seres, que ele, o Devir, viaje eternamente de dentro de mim pra lá, de lá pr’aqui dentro pra eu poder entender mais uma vez que está tudo junto, e que, vista na desordem, em todos os tempos do mundo, na arte acima de qualquer coisa, no piano de lá, transposta para o piano de cá, a alma é onipresente. E a mudança, minha desordem eterna.

domingo, 16 de março de 2008

Quando a gente ficou tão simples?
É que antes tudo ficaria no ar. A possibilidade de encontro seria suficiente, e agora eu ligo até pra minha própria aparência para caminhar.
Ali, na sala de aula, reparei que em todo dia ensolarado a luz penetra, assim, por cima da janela e eu nunca vi mais brilhante, e naquele dia comecei a ficar com dúvidas se o que estava ali perto de mim, iluminando tudo, era deus ou você. Talvez estejam até se fundindo absurdamente, e juro que aí ou vou me perder pra sempre ou me acho enquanto devota do mundo. E vai ser por tua causa. Eu vou me perder. Quanto mais mediação, menos sagrado é um contexto, e eu vou me perder porque vou recusá-la, numa escolha intuitiva em que as perguntas, as respostas, as pessoas e o tempo vão andar juntos, se apoiar em si mesmos e voar e...

(Fiquei tão simples que não sei mais como contar...)

É ali, na sala 3049, que ganha uma tonalidade entre branco, amarelo e a cor-de-eu-espalhado-pelas-paredes quando você chega: você me invade em forma de luz toda manhã.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O dia é bonito

e tem sim um ar de mudança.
Entre aquelas luzes todas, os sons, os cartazes de tarô com promessas de amores, meu deus, ainda não pertenço de todo. Porque mudança é assim, né?! As possibilidades entorpecem e até a dona humilde que tem um filho que estuda numa escolinha primária te assusta, já que te dirigiu a palavra no ônibus, quando você ainda não se tinha preparado para dialogar com a realidade naquela manhã. Não tinha: eu subi a escada e ele desceu. 2 milhões de habitantes; nenhum compromisso marcado um com o outro, mas enquanto ele descia eu subia, e não tinha o que dizer além de um abraço rápido que poderia ter sido maior, como ode a tudo que causou dentro de mim até o mês passado. Agora não dá mais tempo - nem de idealizar o reencontro e nem o tempo da gente. Acabou. Realidade iniciou um monólogo que levou de mim o moço da escada, e, de forma inédita não deixou doer: sim, era apenas um moço na escada, e tudo além de uma imagem masculina apressada com o telefone nas mãos morava era em mim, n'era nele não.
O dia bonito passa. Às vezes azul-azul, hoje foi cinza e teve gotas (pra mim ainda são 16 de fevereiro, é por isso que o tempo varia tanto, quando as horas são mortas ) e o post passado já não faz mais sentido. Aquele de lá, ah, a gente não se encontra em escadas. Estamos os dois no mesmo plano, e ainda assim a gente se encontra longe, no auge de todo o sentimento que me mantém respirando sem pressa. Não sei como um princípio de equívoco torto me fez crer que o Monólogo levaria aquele que amo ali, no ápice. Minha realidade é do lado de dentro, e não posso nem dizer que sinto muito por isso com tom de culpa. Digo que sinto muito, apenas. Sorrindo.
E eu amo como menininha de 4 anos encantada com o primeiro amiguinho da sala que valesse a pena e valesse sem critérios prévios, por amar puro que só - os estereótipos é que são infantis. Amo como velha e suas poucas recordações: numa mente sustentada por nostalgia, o transitório caiu ao vão há tempos [ e entre o vão e você, existe eu. E futuro sem sua presença não existe não.
Só queria te dizer...] e remanesceu apenas tudo que foi cru.
Naquela tarde de 16, eu tirei as sapatilhas e fui tomar um banho e todo meu cansaço e nossa história, que naquele dia fazia um ano, me guiaram pro portão da tua casa. E o que ficou, meu bem, ah, se eu achava que tudo o que você viu ia nos fazer desencontrar, agora tenho a certeza de que a maneira com que você me olhou disse "fica". Desde então, não tenho conseguido fazer muito, além de acordar e me trancar no quarto só esperando dar a hora de ir embora, te encontrar por acaso dentro do ônibus pra faculdade na manhã seguinte e a vida fazer mais sentido. Se o que você viu me trazia insegurança, o jeito com que olha pra mim traz a idéia de que as lágrimas de ansiedade são recíprocas. E as outras também.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Você,

Foram dias estranhos.
Me desculpa, meu amor, mas as circunstâncias e os teus suspiros e o que você viu me disseram pra tentar enxergar a vida sem você por uns minutos. Não há. Me desculpa achar isso, mas é que sinto que vou embora aos poucos. Sim, dessa cidade também, mas é que chegou ao meu ouvido que pela primeira vez na vida as nossas escolhas vão se desencontrar.
E que vou ter que ir pra deixar você viver. Como sempre. É que freqüentemente fica tudo tão aqui dentro, que quando vai pra fora eu saio estragando a vida dos outros. Toda vez. Se me perguntam porque vai ficando um eu etéreo mais e mais pra mostrar, eis a resposta em ti, como sempre. É que eu faço estragos. Toda vez.
Preciso me esconder.
Me abraça antes então, e eu sei que você vai saber como, por ter dito que não me deixaria.
Vou virar cinzas no toque e quando eu for embora, pó. O fim é o mesmo, e ele é eu-só, me desculpa te contradizer.
O fim é o mesmo e que você faça o caminho até lá o mais bonito possível. Como sempre.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Primeiro Período.

Era eu andando pelo corredor. Sem saber se estava aqui dentro mesmo ou materializada n'alguma partícula de poeira, mas deus sabe que nunca havia me enxergado tão alta.
Oi, eu sou Nathália, tenho 17 e parece que tô indo embora. Fui tudo que pude ser no mundo até aqui e por confiar tanto em nossa própria impotência, me recusei a achar que tudo já foi pensado e por confiar tanto na minha vontade de ser mais, escolhi Filosofia. A dança já me escolheu faz anos.
Tão alta! E de imediato tentei lembrar o que foi que aprendi de verdade. Poucos dias antes do vestibular, aprendi que a música desenvolve as habilidades do lado esquerdo do corpo, num documentário cheio de tribos e ritmos que me deu a certeza de um dia estar num curso de antropologia. Lembrei de querer ser astrônoma: Urano tem um anel vertical. O Sol deve engolir a Terra daqui a muitos anos. Se morássemos em Júpiter, seríamos achatados, que a gravidade é quatro ou catorze vezes mais intensa! (Mas ainda não sei o que aconteceria se habitássemos Saturno...)

Parece que foi só. Lembrei os três anos em que estudei naquele colégio maldito, onde, por mais maldito que fosse, notei que o céu tem todas as cores em si e eu também. E que uma das quasenenhuma vantagens de haver quaseninguém no mundo escolhendo como viver por amor, é que quando duas exceções se esbarram, o encontro é imediato e estão os dois perdoados por ser. Assim encontrei uma professora de literatura que sabia tudo e um de história que sempre me fez querer ter estado nas "Diretas Já", a ponto de morrer de nostalgia pelo que não vivi.
O primeiro livro grande que li! Descrevia os aromas persas da idade média e o sangue vivo exalado dos castigos orientais e como o mundo pára quando alguém da famíla morre. Ele tornou doce uma sessão de sexo oral porque não passava da concretização de desejo reprimido pela nossa própria humanidade e nãosaberoquefazer a partir de leis de vida que a gente nem sabe pra que existem. Hoje eu quero ir pro lado de lá, lá pro Marrocos, já descobri que os castigos ocidentais sempre tiveram um preço mais alto, tive um calafrio lembrando do que foi minha mãe sofrer um acidente na minha frente e sinto que tudo é humanidade, basta que a gente permita.
Senti que estou indo, e é pra ser mais perdida que antes. Sorri, por estar indo pra cair ao lado de mais 44 perdidos ou mais, onde, não sei o que vai remanescer, mas que haja Epicuro, francês, latim e arte, sem jamais desprezar as várias cores do mundo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Simulacro de uma solidão que encontrou você.

E assim, com todo o ano passado entre as mãos e tanto sentimento ali, no céu da boca, para quando eu te encontrar, confesso ter matado Sophia.
Não foi por querer, nunca na vida eu saio substituindo pessoas por aí, no meu riso tomado por quão engraçado é o passar do tempo. É só que você já nasceu mais vivo que ela e não havia como passar despercebido: eles tentaram tirar as sapatilhas de mim, e enquanto procurava uma fonte de luz temporária, te vi.
E permaneceu... você...
Depois que te toquei uns segundos, uns momentos, virou fonte eterna... você.
Meu corpo segurou a alma de novo, obrigada. Não estava medindo esforços para fundi-los como naquele dezembro, obrigada. Há aqui minha humanidade de volta, agradeço. Aqui estamos. E embora eu seja uns traços de caos prestes a atingir a terra, e embora quando atingirem-na eu vá espalhar o tremor aos quatro cantos só pelo que você está fazendo dentro de mim, no primeiro relapso de sanidade eu vou te ver passar. Vai virar dia, vai ficar tudo bem. Dentre tanto que me ensinou, uma coisa que aprendi é que vai ficar tudo bem.
Se tiver nós dois. A gente enloquece, sente a culpa e a ausência e o medo, mas aí acontece o abraço. Energias trafegam numa velocidade, ânsiamor enormes... você desvenda os sentimentos no céu da boca.
Por tua causa, agora têm medo do escuro.
Matei Sophia num conjunto de manhãs de janeiro, começando pelos pés. Num conjunto de tanta gente e suas vidas, perdidas entre tantos cheiros misturados e melodias sem nexo - cada um com a sua. Entre Kant e Brasil República, a inocência e a autoria de um assassinato cabiam a mim. Há aqui minha dualidade de volta, agradeço. Obrigada. Eu te amo. Você é a coisa mais linda do mundo quando acorda.
Por tua causa, minha dualidade já não é mais escura. Por tua causa, as manhãs me dizem tanto, mesmo sem nenhuma nuvem de algodão doce colorido.
Por tua causa, passei a abrigar Vênus por dentro.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Simulacro de uma solidão inocente

20 de outubro

Te deixei com me... nosso "Água Viva" e não consegui dormir pensando em como essa mulher nos uniu de um jeito que tudo em ti me afeta, não se separa de mim ...
e somos um só.
Não morri, você vê? Todas aquelas vezes eu não morri, porque em alguma parte da cidade estava você vivendo o mesmo início de morte, e a gente tinha que sobreviver pra um dia se olhar e dizer que o fizemos juntos e temos um ao outro exatamente, exatamente da mesma maneira, sempre que o coração ameaçar ir parando de bater aos poucos até cessar. Sempre que alma estiver a um passo de se esfarelar.
Te abracei. E era um tambor dentro de mim e toda nossa vida na garganta - pela segunda ou terceira vez na existência, pertenci.
Foi bonito porque até aí tivemos um ao outro pra sempre.

3 de novembro
Cansei daquele caminho velho. Epifania.
Quis ver "A Fraternidade é Vermelha" e a locadora é justamente no outro caminho. Epifania.
Ao entrar nela enfim, vi alguém saindo, era você e eu ajoelhei por dentro. Abracei de tão feliz as que estavam contigo, mesmo só reconhecendo uma delas. Abracei você de tão tudojunto, da maneira que só a gente sabe.

13 de novembro

Foi o dia que Nãna passou no vestibular. Bateram no interfone, era o moço do correio. Maior sorriso do mundo, por ter nas mãos teu presente de aniversário que havia chegado, justo enquanto nos falávamos através de dedos e eu ganhava um ''te amo'' que, de verdade, não esperava. Achei o cartão bonito, embora ainda não o tenha escrito. Espero que nele consiga me doar de alguma forma que ainda não saiba, pra soar tão maravilhoso como te... nosso ''te amo'' e tão revolucionário quanto todos os deuses do mundo se manifestando juntos toda vez que a gente se encontra.
Precisei passar em frente à locadora, a mesma de dez dias atrás. Na banca de jornais da outra rua, uma capa de revista de Literatura com a foto de nossa Clarice e eu com o mesmo sentimento daqueles abraços.
Leve, fui embora, passei pela praça e subi e subi a rua. Ventou. Lembrei-me de como aos catorze anos eu ia dançar e o vento batendo em mim pelo caminho era um alívio e eu flutuaria a qualquer minuto. E flutuei de verdade.
(A lembrança dos dez dias era tão viva, que o sentimento era tão puro, que eu não era mais humana e qualquer brisazinha à toa também teria me erguido demais, e também teria sido alívio.)

14 de novembro

Cheguei às duas da tarde pra marcar palco e não tinha ninguém.
Sentei nas escadas com minha mãe, fechei os olhos escondendo o sorriso e em silêncio agradeci a deus por minha mãe ser ELA: se fosse outra, é possível que eu estivesse ali reclamando do calor e da boca seca. Mas não é outra, não, é ELA. Por isso eu estava era olhando pra cima, atraída pelo barulho dos periquitos verdes na árvore, notando que eram i-d-ê-n-t-i-c-o-s aos que moravam aqui quando tinha 8 anos de idade... aqueles que gostavam de comer macarrão cru!
Olhando e olhando, até notar que ali perto da árvore fazia sombra.

15 de novembro

Descobri que quando a gente dorme cedinho, perde o sono de madrugada e se levanta quando ainda tá quase escuro, as nuvens do céu ficam cor-de-rosa... prá compensar!
Lembrei uns dias em que queria ser astrônoma, quando li que Vênus, no céu, é a primeira estrelinha brilhante que aparece ao escurecer e ao amanhecer. Depois, vi milhares de pássaros voando, os dois gatos da vizinha em cima do muro e os primeiros raiozinhos de sol entre as folhas. Recordei o dia em que me disseram ser Vênus a deusa do amor e da beleza, aí sim entendi o porquê daquela estrelinha estar no céu àquela hora todos os dias e sorri: não sou a única que gosta de ficar perto de nuvens de algodão doce colorido!




sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Terça-feira

Sabe que fiquei com aquela frase na cabeça?
"Tem gente que nasceu pra certas coisas na vida. Eu fui nascida para perdoar."
Deus meu, agora penso que é a concentração da essência de uma mulher. Perdoar. Por entender cada traço de culpa em cada tonelada de Arrependimento, mais do que é humanamente conhecido, mais do que é ocidentalmente tragável. Perdoar. Porque aquele assaltante chegaria em casa de noite, sentaria no chão e veria que a correntinha se arrebentou e já não vale muito. E que só consegue comer por jogar na cara dos outros o maior temor que assola um ser, humano, que é o de não mais poder se mostrar como queria. Perdoar desejando. Voltar no tempo para dar-lhe o pingente de cristal caído entre os seios quando ele puxou.

[é que assim ganharia uns trocados e a Ilusão: viver da submissão de transeuntes vale a pena. é que nem a pior das criaturas merece, ainda que num instante inconsciente, morrer de dó de si mesmo, meu bem...]

e eu desculpo.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Filosofia parte II

Ora, parece que mais uma vez tudo se esvaiu.
À primeira vista, Sofia era um tango - arrancava desejo e suspiros doce e sutilmente. Acontece que, à segunda vista, era apenas uma melodia de sala de aula, quadrada como ela só, e os vestígios de dor remanesceram justamente porque são quadradas: os quatro ângulos retos as tornam dolorosamente necessárias.
Parece que sua participação terminou aí.
Sofia veio como um presente. Cedeu um pouco de luz. Enxergada. Então, foi-se embora quando já não havia mais reação ou face para irradiar.
E os vestígios de dor remanesceram justamente porque essa ida deu-se bem na hora em que a bailarina estava por um triz de se doar como nunca. Ficaram mais de dez folhas manuscritas de pura entrega do lado de lá, e respira aliviada por não ter ficado raiva, não.
Um presente. Ela havia guiado a bailarina num momento decisivo; estado de sítio do lado de dentro. "Seria regredir e achar que aquilo era vida ou seria apoderar-me da quietude e do compasso do tempo para espalhar ao mundo?" ...É, Sofia, ela escolheu viver e muito obrigada. Agora acaricia os manuscritos e aceita... Você nunca imaginaria (e muito obrigada).
É que te ama. Poderia usar daqueles conceitos teus para amenizar, porém não! Ama do seu jeito. Sem demandar tempo. E você existe no planeta Terra exatamente na mesma hora que ela até um dos dois morrer, e não fazer algo dessa simultaneidade seria calar a boca e ah, minha querida, o que move aquela existência é o tanto que tem a dizer... acreditaria se dissesse que é maior que a gratidão?
Linhas do teu rosto em todo lugar, e que você agora seja a música de alguém mais são e que a alegria seja real. O que alimenta aquela existência é a necessidade de crença num segundo de paz sem as sapatilhas: se os pés não puderem ficar descalços jamais, como a bailarina vai envelhecer um dia? Que seja real porque a paz É tua alegria.
Ela ama. Entendeu enfim que amar não é depositar os medos e as esperanças no outro em troca de leveza, é apenas fundir duas porções de solidão naturalmente, com disposição para suportar os extremos que trazem consigo de forma inevitável, tendo consciência de si para dali haver beleza em maioria.
Na última página que segura nas mãos, "Este capítulo é pra dizer que sinto que nos separaremos. Você irá embora do quarto e eu vou rodopiar n'outro corredor. É o que subentendi da nossa última conversa, é a razão do pedido de desculpas. Sinto muito se causei caos na tua liberdade... o caos sou eu, não adianta, mas a simples chance de comprometer tua liberdade me faria muito pior. Preciso daqueles que têm algo pra acreditar profundamente para continuar. Sei lá quando ou se voltarei a escrever isto. Eu gostaria muito"...
... Só não quer atrapalhar.