quinta-feira, 14 de junho de 2007

Sabe, Túlio

Depois desse tempo todo, escrever teu nome assim, cru e sem metáforas me dá um frio na espinha.
Sei que disse que pararia de publicar as cartas, porém, essa é a última.
A cada vez que converso contigo, um sentimento extremo desponta em mim... às vezes, saio rodando, rindo, rezando (pra você cair do céu nos meus braços), só que em nosso último diálogo (de um só, talvez) senti desgaste.
Sabe, Túlio, preciso de alguém que, em plena noção de si mesmo, não planeje relações inter-pessoais, nem estabeleça critérios para viver com alguém. Eu preciso, meu bem, é de qualquer pessoa que saiba se entregar de corpo e alma, que saiba criar sorrisos através da rendenção aos próprios sentimentos. Preciso de alguém que ria da graça da surpresa e ache lindo quando uma pessoa vem do nada e nos marca a vida pra sempre, nos faz perder a cabeça. Sem pressa, sem cessar. Paixão exalada dos poros, à medida em que cada respiração vai fazendo mais e mais sentido e cada segundo se tornando denso por causa dele... (e da sua respiração também! Tangente a minha...).
E eu te agradeço. Tanto...
Amando você, fiz parte do meu mundo dançar junto, cantar meu canto... e nessa sintonia divina que se deu só porque existimos ao mesmo tempo, cheguei a lugares onde aprendi até mesmo que letrinhas andam de bicicleta.
Só não te agradeço mais porque você me enganou... sim, me levando a crer por todos esses meses que fui feita pra ficar sozinha quando, na verdade, foi você.
Sempre existi às avessas e por carregar isso comigo há dezessete anos, qualquer um a quem eu conquiste, ganha minha história e então, minha essência e então, meus contrários grudados. E você, meu bem, tornou-se Avesso por tudo aquilo que ainda não conseguiu superar e, conseqüentemente, não sabe transformar em doçura. E por isso, encara flores como flores, seres humanos como animais e os animais, como microbióticos... enquanto pra mim são fragmentos do corpo por completo, que num mutualismo infinito, vivem comigo de mãos dadas. São todos espelhos. Íris.
Sabe, Túlio, que seja Tudo que pode ser. Que sobreviva: nunca vou te abandonar, mas, conforme Ritinha bem me ensinou, o que disse que te dava, nem a mim pertence mais.

sábado, 2 de junho de 2007

Três. Menininhas-quase-mulheres, com seus problemas peculiares, gritos e desequilíbrios que isolam cada uma em cada canto.

Olha, minha menina número 1: te juro que se fosse médica, mandava da maneira que fosse um jeito pro teu tio ficar bem. Eu realmente não sabia do quanto você era importante prá mim até hoje. Fora de página escrita ou após um diálogo denso na tela, ninguém tinha me arrancado lágrimas só ficando parado procurando respostas. Mas você fez. Como disse Cecília, havia uma ausência tão presente em você, que eu entendi tudo através das asas que ganhou naquela hora. Então se você quiser chorar de novo comigo, liga aqui, viu?! Sempre estive disposta a esquecer tudo de ruim que me contaram de você, e depois de hoje, estou disposta até a não acreditar em nada. Você é linda e precisa de força. Não digo prá tirar essa força de mim, seria me superestimar até a alma, mas qualquer coisa, jura que liga aqui. Eu vôo.

Menina número 2: eu te amo incondicionalmente. E vamos que vamos, entre promessas de amores, moicanos, cantando Wish you were here com alguém no violão. Sempre lá, prá te lembrar da tua beleza e falar com jeito quando a bebida subir demais e você quiser contactar amores mal-resolvidos passados. ('Eu te amo'' olho-no-olho entontece mais e eu te desejo toda a intensidade do mundo).

Menina número 3: Não, cresce, não, bailarina. E abraça tudo aí que der, porque você agora sabe, que nunca antes foi tão feliz assim.


Eu precisava.
À nós. Três meninas-quebra-cabeça, que se juntam e se completam e a existência das outras duas basta para um choro de felicidade, um sorriso bobo por causa da lua e para se fazer luz.
Hoje o universo dentro de cada uma é almofadado e hoje tudo ficará bem, minhas queridas.
Bem e cheio de estrelas.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Ode ao desapego

Às meninas pelas metades, ao Tu que li ontem e aos terráqueos terrivelmente cientes disso.

Sabem, é isso. Uma entrega e uma luz que vem de dentro que me derruba e faz maior. Pela melodia, pela letra e pelo não dito: permaneço. E vou me entregando assim, exatamente. Luz da lua, da lágrima, da amelice. Luz em mim, em fim.
E vocês aí d'outro mundo, não tentem me fazer diminuir! O mundo de vocês precisa é de mais "vocês", posso trazê-los, achar bonito, só que acho de longe. Não quero fazer parte. O meu precisa é de silêncio, e eu de pó de breu prá deslizar sem pressa. Daí só quero a beleza... para chorar, chorar de rir, chorar comigo.
Cada momento é uma lembrança de alguém a quem poderia estar unida, e acontece que não quero mais, não, moça.
Não vou pertencer e não me interessa ter forma. Quero continuar partícula carregada prá cá e prá lá pelo que eu vejo. E como o que vejo é praticamente o que sou, vou continuar sendo minha própria fonte de energia. [Como já disse várias vezes] Sendo fantasma de tão viva, sendo muito sendo nada. E sendo sempre e sendo só.

(E a ti meu bem, desejo boa viagem. Que tuas irmãs te façam ver o quanto és lindo, e que entendas que te amo, e que me mantenho MuitoeSó também para ver-te sorrindo na maior parte dos dias - terrestres, que os meus já são puramente o teu sorriso mais sincero... contados em conchinhas!)

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Pugno, ergo sum.

tu, li o teu corpo e arrepiei,
que do teu todo não sei
...mas a multiplicidade me encanta.
[e mata. e justifica.]

sábado, 19 de maio de 2007

Jornada da Alma

Entrei lá cheia de Sabina Spielrein e saí cheia de saudade.
Entre várias palavras, espontaneamente bem cuidadas, foi tão lindo que nos abraçamos verbalmente e um quis ver o outro... me perguntei porque só fica tão claro quando ele bebe um pouco e quando eu dormi bem na noite passada. E já que sono também é entorpecente, quis muito saber porque os dois precisam de estar bêbados para pertencer.
Confessei que por vezes, queria ser uma pedra, mas ele não gostou, prefere os cometas.
Perdidos em confissões abstratas e é claro que me rendi:
Hoje quis ser o mar. Por ser um mundo que ele teme, mas que tocaria com os pés se estivesse mais perto.


quarta-feira, 16 de maio de 2007

Da dor estática no lado de dentro:

Como minha alma está também nas tuas palavras, quando são lançadas e colidem comigo é alma².
Espaço insuficiente para tanto eu!
Aí ocorre uma explosão: lágrimas salgadas e meus lábios franzidos em queda livre até outra gravidade maior abraçar.

sábado, 12 de maio de 2007

Sobre o tempo não-das-horas...

... Mas sobre o tempo gelado que faz sol.
É lindo demais.
Gosto de acordar com a cara amassada, com sono e com a luz do sol bem amarela e bem nos olhos. Gosto de precisar de um moletom apesar da luz, porque sempre disseram que sol e frio não se gostavam, daí vejo que não é verdade, prá sorrir pensando em todas as vezes que defendi os "opostos que andam junto" (era assim o texto?!).
Aliás, essa semana me rendeu um fato engraçado por causa desse post antigo.
Creio que já comentei com alguéns, mas agora admito a todos que, quando tenho que escrever por obrigação, encontram-se trechos de postagens antigas espalhadas. Não é pelo fato de minha inspiração ter hora, mas é que é tão estranho ler para quem não sente, que tento me simplificar com o que já existe. Com o que já existe em mim.
A proposta era remontar poeticamente um desses textos clichês, cujo autor não se sabe e é mais fácil falar que é de Shakespeare... lidos por pessoas que se emocionam com eles no momento, até o último ponto final, quando elas saem da sala para continuar sendo o mesmo tédio de antes.
Não montei nada. Quebrei. Quebrei cada verso a partir desse ponto de vista sobre os leitores de shakespearesgratuitos, finalizando a quebra com frações dos meus limites, meios, opostos que andam junto.
A graça?!
Involuntariamente, insultei mais da metade da sala de aula no meu quebrar (e mais da metade desse mundo, meu deus), entretanto, ganhei mil aplausos e parabéns pela criaç... reafirmação da alma.
Foi aí.
Aí que eu me desprendi.
Não vivo mais o que já morreu... não vivo mais as pessoas como um todo. Vivo as desconhecidas, e só quando há paz em mim, por ter me apaixonado pelo frio que vai chegar, ou pelo mar de julho, ou pela flor cor-de-rosa nova do jardim. Vivo-as quando há espera ou amor maior que eu pelo que já existe e não é humano.
E na tristeza, só vivo quando, já com as sapatilhas nos pés, começo a tocar o chão com elas e sentir as bolhas e ainda assim continuo a tocar, até tirar e ver que os dedos sangram. Vivo por saber que dessa dor não morro. E a escolhi. É, aí eu vivo: é a única coisa que realmente tenho prá perder e não vou. Por sentir que os pés não suportam só as duas pernas, o tronco, a cabeça, os cílios alongados com máscara: suportam também o peso da dor que não se dança.
Aí eu fico aqui. Encantada com o frio que abraçou o sol e com o último texto da Menina ao Meio, embaixo do cobertor de pijamas aguardando julho prá ver o mar.
De pijamas, com os pés cheios de band-aids e esparadrapos... por essa semana eu ter vivido mais que suportava realmente.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Última carta compartilhada

"(...) aos montes.

... Em troca, prometo parar de publicar o que te escrevo. Desde quando falei que te daria Eu. Se antes não era de todo verdade, porque qualquer alma um pouco mais doce entendia e me alcançava as palavras, agora é.
Aqui, ó: meus verbos, segundas, terceiras pessoas, reticências, subjuntivos.
Um dia, talvez lhe entregue mesmo. Nesse mesmo dia, vou começar a rezar para que tais palavras te ajudem a se entregar aos quatro ventos, conforme condiz com teu merecimento. E condiz, sim viu?!"

... Agora virou diálogo de um só.

sábado, 5 de maio de 2007

Letrinhas, bourées.

" E ouvi de uma Poulain para ouvir a mim. Estive lá... nem que tenha sido apenas com letrinhas.
É teu.
O alfabeto inteiro é teu.

Caso algum dia, você volte a achar que foi um peso prá alguém, me chama.
Talvez, da próxima, eu tenha coragem de te dizer que não tem como ser verdade. Não tem, querido... você e esse silêncio que você carrega... sem mudar nada de lugar, são êxtase, dor, perfeição. História. Sentimento. Pode ter certeza de que, caso sentimento e história pesem, quem respira pode carregar sozinho, ou seria pó e cinzas.
E quando estiver sem tempo, me chama, porque te mostro que tempo é a coisa mais subjetiva do universo, então eu posso te dar, junto com o que sobrou de mim."

quinta-feira, 3 de maio de 2007

"Direta. Sem atemporalidades...

... e só não digo sem subjetivismo porque aí não seria eu dizendo.
E o que quero dizer, agora, na verdade, é sem propósito. Arte(?) pela arte. Escrita pela escrita. Saudade por si, em si.

Não ligo pro que você faz, só tenho medo de você ter fugido e ninguém me dito nada. (Duas semanas... duas semanas!). Sinto falta da tua pessoa.
Encaremos os fatos: não sou deste mundo e nem você.
Preciso te falar pra ver Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, porque ninguém mais me deixa extravazar, ninguém entende! Aliás, nada garante que você também deixa... mas é você o raro absoluto dentro de mim. Então, garanto eu. E me entrego.
Em meio a sonhos interrompidos, Nietzsche e cartas de amor não sei de você, só que é tudo você. Sim, nunca te disse que você é um sonho? É um sonho e é meu... porque jamais compreendi ou soube o rumo dos meus sonhos, e sempre fui fascinada por eles. Queria tocar.
Além do mais, o mais profundo de mim sabe que, eventualmente, vou sonhar tudo de novo. Vou sonhar você de novo... é só aparecer e dizer "oi" que te mostro.
É Nietzsche por... pelas versões e distorções, por não deixar claro nenhum existencialismo ou metafísica e acabar sendo esse tanto de sei-la-o-quê que adotei de uma forma ou de outra. Adotei o "Ciclo do Mesmo", um niilismo aqui e ali...talvez numa tentativa implícita de te achar, porque te adotei como saudade. Por si, em si.
Queria que o telefone não tivesse tocado pra eu acordar. Nessa altura, queria que você não tivesse me tocado prá acordar acabando o que mal começamos naquele dia.
Que fôssemos uma mera questão estética. Que não soubéssemos de nós mesmos."

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Atemporalidade (mas nem tanto) - carta III

" Dreamland, faz uma semana que te vi e que me derreti no seu abraço.

Sabe o que me encanta?

O que nos liga transcende a dor, a história e o contexto. Nós dois somos promessas.

É isso.

Eu quero olhar nos teus olhos e dizer que sou mais feliz desde que você entrou na minha vida, porque nós somos duas promessas.

Promessas de cinema, de dança, de eclipses, de amores mal-resolvidos, dos futuros, de letras, de casos, de família, de faculdade, de fotografia, de pontos de vista e de reencontro.

A gente é tão um pouco de tudo que é nada sendo muito. Ao ser muito, a gente se confunde e faz pouco. Somos culpados. Culpa é dor, e dor nos torna mais ainda.

Nesse ciclo, no auge do meu cansaço, quando eu mais que nunca quis transformar isso em paz, eu te vi. Não foi preciso querer de novo porque a paz veio no fim daquela noite.

E no teu “feliz aniversário” tímido.

Na tua fotografia tocando violão. E naquela com tuas irmãs.

No teus segredos poucos que eu sei.

Naquele dia em que eu liguei e você foi.

Agora que a calma chegou aqui, sigo fazendo o bem pros outros com o que consigo dar de mim.

Geralmente é sorriso. É texto. Só é intocável quando é dança e quando é poesia.

Mas pra você ... eu me dou inteira. O tocável e o metafísico. E você nem sabe.

Leminski disse pra você pensar e te parecer, ou vou te inventar pela eternidade.

Então pense e te (a)pareça, porque não ouso te inventar . Acredite, nem sequer chegaria aos pés da realidade, pela primeira vez em toda a minha vida..."

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Dezesseis. Dezessete. Mais um. Mais outro. Dois.

Abril é lindo.

Todo dia 16 eu faço mais um ano como bailarina.

Todo dia 16 é mais um mês que conheci quem me dá inspiração para escrever posts como os dois últimos.

Todo dia 18 eu faço aniversário.

Todo dia 29 é dia da dança.

O que eu tenho pra dizer é que tenho orgulho de mim e que me amo.

Sabe, eu costumava ser um pedaço de gente que se perguntava demais e era apaixonada por tudo e tinha vergonha de sorrir, já que os dentes da frente eram separados. O que hoje me faz olhar pra trás e querer me encontrar criança, só pra dar um abraço, é o tanto de vida que cabia entre os intervalos das minhas perguntas, da minha paixão e da minha vergonha.

Agora eu sei. O que me tachava de incomum e até de lerda era a minha solidão, a solidão que eu assumo hoje.

A verdadeira, como Clarice sabe bem. Aquela que só quer o bem dos outros, a solidão cuja quietude é um não-saber imenso ... você fica tão grande que não sabe o que fazer consigo e fica ali. Parada. Achando tudo lindo. Achando lindo ou morrendo de dor. Os dois quando dá sorte ... pra se encontrar em algum momento e ir dançar tudo mais tarde. Ou escrever. Os dois quando você se encontra e se perde e te cabe.

Eu me perdi.

E por ter me perdido, a minha quietude é livre. Minha liberdade é quieta. O meu não-saber é puro eu.

O orgulho que tenho de mim está na vez que eu não contei pro meu pai do meu primeiro namorado, porque me dei conta do amor que sentia (pelo pai, é claro, eu tenho cara de quem ama quem interpreta silêncio como depressão?), que qualquer situação que poderia fazê-lo sentir um pouco menor, eu chutei do mundo dele.

Está no dia em que comecei a dançar ballet sem ninguém saber. Porque a força que eu adquiri, a cada dia em que eu rodopiava quando não devia e morria um pouco enquanto poderia estar vendo tv, fez o peso de eu não ter nascido para ser mais uma, uma alegria enorme.

Está em tudo que eu faço só pensando no meu sonho, enquanto eu vou catando e esbarrando em pessoas pelo caminho até me tornar frações de cada uma.

Gosto de mim porque sou Nathália e agora tenho dezessete. Eu mordo, abraço, choro de rir e minha vida é um grande musical amelístico, cheio de bolinha de sabão e chocolate, não só por eu ser devota do que eu fui , mas porque nunca deixei de ser.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Atemporalidade - carta II

"Dreamland, o mês é o mesmo e choveu ontem. Acho que a aula é de Física. Parece que um campo elétrico é capaz de realizar trabalho...

Te ver de novo foi dúbio.
Há tempos não segurava o choro daquele jeito, há tempos não me perguntava se as lágrimas seriam de desespero ou êxtase da felicidade pura.
Nunca um abraço me doeu tanto e "tanto", é uma intensidade que nunca havia sido perfeita para descrever minha espera por um abraço. Agora é insuficiente.
Você existe, aí, do seu jeito. Respira, dorme e qualquer esforço seu me prende. Quero ficar na sua vida para sempre, seja como for. Como a menina que por vezes tenta esquecer que você vive e não consegue achar, além da sala de dança, espaço mais lindo para cabê-la que seus olhos. E seu meio-sorriso. E seus momentos de silêncio.
Você existe aí e do seu jeito, assim como eu, é um poço de dúvidas. É perdido e é minha perdição. Por mais que as chances de você admitir, num estado sóbrio, ao menos, que quer me tocar de novo sejam nulas... obrigada por me deixar te olhar.
Olho e me apaixono pela suaexistênciadoseujeito, seu sono, sua respiração e seus erros.
Olho e não te vejo por inteiro, Eu do Lado Avesso. Mas todo e cada pedacinho seu... eu amo."


sexta-feira, 6 de abril de 2007

Atemporalidade - carta

"Dreamland, algum dia do mês do meu aniversário, era pra ser outono e o ano não importa.

Já posso dizer que te amo, embora quisera não poder.
Deveria ser igual das outras vezes: enquanto tenho você perto faço o oposto, e quando tenho longe, não faço nada.
Não é.
Sabe, eu queria te agradecer. Não simplesmente porque você existe nesse mundo e no meu, mas por você ter me ensinado a amar da forma mais solitária que experimentei. Da forma mais quieta. Toda a minha indiferença nas suas provocações não é tristeza, não é dependência, é simplesmente uma manifestação do meu desejo de te deixar ir. Eu quero que você vá e receba todo tipo de intensidade que se conhece, só para você voltar maior, tão grande que vai querer me contar sua vida, finalmente.
Eu te amo da forma mais quieta porque tudo que bastou para eu me apaixonar coube em alguns segundos... e você nem disse nada, só olhou. Eu te amo quando não entendo o tempo e quando tudo o que eu espero, espero só de mim.
Não quero parar. Imagine que nada do que me transmite é doce demais, é só um ponto de interrogação, reticências, talvez, e isso é suficiente para querer te abraçar uns quinze minutos.
Agora te vejo nas melodias, nas letras, nos roteiros, no ócio, no álcool e na história do Pierrot e da Colombina. E o que eu queria mesmo... ah, era te ver por inteiro, Eu do Lado Avesso."

sexta-feira, 30 de março de 2007

Era só mais um dia qualquer e eu estava lá, na sala de espera da médica, enquanto imaginava o alívio instantâneo que seria me trancar numa geladeira.

E eu peguei uma dessas revistas nas quais o homem quer mostrar inteligência e acaba, nas entrelinhas, mostrando toda a sua falta de tudo. E enquanto ia me tornando mais niilista e entediada a cada página, vi aquela fotografia pequenininha no canto esquerdo.

Instantâneo foi o meu envolvimento.

O momento exato foi captado, o momento em que um homem de uns cinqüenta anos chorava como uma criança após ser verbalmente insultado por um político, simplesmente porque exerceu seu direito (e por que não prazer?) de discordar.

Sabe quando você sai na rua e tudo é movimentado e normal e bagunçado, até que alguma forma de vida merece sua atenção e, de repente, você se pega analisando cada detalhe ao redor dela e vendo a grandeza daquele pequeno pedaço de nada?

Era isso. A fotografia era um pedaço lírico de vida medíocre. Paralisada. E quando eu aproximava a página de mim, dava para ver as lágrimas se formando nos olhos dele, verdes. Na verdade eu não sei, mas eu gosto da idéia de seus olhos serem verdes. E mais que disso, eu gosto da idéia de alguém que sobreviveu a mais da metade da vida tendo alguma emoção para expressar por inteiro sem se desculpar.

Foi nisso que tenho pensado desde esse dia, na nossa fragilidade. Em como alguém que já sentiu quase toda intensidade de dor e perda se doou tanto para uma pessoa que também é um pedaço de nada, mas minúsculo, do tamanho de um quark.

Ficou claro para mim o que separa um recém-nascido de um adulto: a fragilidade do recém-nascido existe porque existe, e a fragilidade do adulto é cansaço.

Fiquei me perguntando se as coisas são como são por causa daquelas horas nas quais deveríamos ter nos calado e cuidado do próprio estado de alma, ao invés de nos deixarmos ser detestáveis. Quis apagar muitos dos meus diálogos.

Desejei que nunca me perguntassem mais nada, para que não me dessem tão de graça a chance de assassinar a auto-estima alheia. Desejei parar de achar e não acabar com o que eu não aniquilei quando não calei a boca. Desejei o máximo de silêncio possível o tempo todo.

O que me matou foi o fato de aquela fotografia estar ali, crua e intensa, e a reportagem só falar de quarks.

O que me matou mesmo foi o fato da minha fragilidade ser cansaço, quando sou mais recém-nascida que adulta.

domingo, 25 de março de 2007

Cor-de-rosa. Bebida. Talvez. Vermelho. Sexualidade. Vadia. De novo. Memórias. Areia. "Ela e o mar".

Tudo de que me lembro é de quando comecei a chorar ontem.
Eu me lembro porque durou além das lágrimas. Olhe agora, por exemplo, não há lágrimas e estou chorando.
Deus sabe pelo que estou passando e ele (ela? aquilo?) é provavelmente o único. Nem eu sei.
Sou tão fascinada com o que não compreendo que não paro de me olhar no espelho a toda hora. Não posso tocar o que vejo e talvez eu tema o que eu vejo, mas sinto a sua profundidade.
E me apaixono pela minha vida. A minha própria.
Quero dançar para morrer depois. Ler para morrer depois. Acordar para morrer depois. E todas essas pequenas mortes diárias deveriam me deixar num estado absoluto de morbidez, e me deixam em êxtase no lugar. Ou fora do lugar?
Eu morro para explodir depois, para morrer depois e explodir até a morte. O que deveria ser oposto anda junto, não só a falta de existência e o etéreo, como também tudo no meio deles.
E sabe qual a graça? Eu não sou o meio de nada. Sou o limite. E meu limite está cheio de "meios" que deveriam se contradizer, quando também são metades uns dos outros.
Meu limite é incompleto, apesar de eu estar, literalmente, tão cheia de tudo até a alma e seu desequilíbrio.
Estou tão viva que sou um fantasma.

terça-feira, 20 de março de 2007

Verdadeira Solidão

Enquanto procuram respostas nos deuses, te procuro e te acho, Clarice.

Foi te encontrando que vi que a solidão dele não era solidão. Era o auge da patética auto-afirmação misturada no mais alto grau de frieza, medo e dúvida. É isso, era o extremo... do que eu tento fugir.

O extremo do meu alcance, ao que tudo indica, está é em você. No espelho, naquele filme também... mas em você da forma mais encantadora, porque foi concreta. Da maneira mais intocável e subjetiva desse mundo, você existiu, respirou e mais que ter sentido minha ambigüidade, você foi a minha ambigüidade.

O que eu estou aprendendo é a me desapegar, e a ser tão devota de mim que a minha solidão, a verdadeira, ganha causa. É causa. Causa.

Quando tentam me tirá-la em algum momento, eu também morro. Mas não porque ela é a única coisa a que ainda me apego, e sim porque ela sou eu.

Acho que você também é.

A ambigüidade, meu Buda, minha felicidade clandestina, meu movimento, minha santidade. Poesia. Profundidade.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O que torna tudo tão complicado é que as pessoas existem.
E como se não bastasse, cada uma delas carrega todo um universo dentro de si.

domingo, 4 de março de 2007

Pós-eclipse

Mais perigoso que lembrar de você por causa da lua, é me ver em você a ponto de interpretá-la como um detalhe cruel demais, quando contemplado por uma pessoa só.
Aliás, mais que isso só temo o fato de me ver em você a todo o tempo agora a ponto de quase esquecer que existe lua.
Queria fazer parte da sua vida por completo, pro seu medo me fazer mais sentido.
E queria fazer parte do seu passado, pra dizer tudo sem receio, e dizer que eu deixo você gostar de mim.
Porque deixo. Deixo, e às vezes até preciso.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

"Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

O que doeu mais foram aqueles segundinhos em que e a gente se olhou sem falar nada. Porque eu pude memorizar cada linha do seu rosto prá depois saber que eu realmente poderia ter te amado. Eu juro.