quarta-feira, 25 de abril de 2007

Atemporalidade (mas nem tanto) - carta III

" Dreamland, faz uma semana que te vi e que me derreti no seu abraço.

Sabe o que me encanta?

O que nos liga transcende a dor, a história e o contexto. Nós dois somos promessas.

É isso.

Eu quero olhar nos teus olhos e dizer que sou mais feliz desde que você entrou na minha vida, porque nós somos duas promessas.

Promessas de cinema, de dança, de eclipses, de amores mal-resolvidos, dos futuros, de letras, de casos, de família, de faculdade, de fotografia, de pontos de vista e de reencontro.

A gente é tão um pouco de tudo que é nada sendo muito. Ao ser muito, a gente se confunde e faz pouco. Somos culpados. Culpa é dor, e dor nos torna mais ainda.

Nesse ciclo, no auge do meu cansaço, quando eu mais que nunca quis transformar isso em paz, eu te vi. Não foi preciso querer de novo porque a paz veio no fim daquela noite.

E no teu “feliz aniversário” tímido.

Na tua fotografia tocando violão. E naquela com tuas irmãs.

No teus segredos poucos que eu sei.

Naquele dia em que eu liguei e você foi.

Agora que a calma chegou aqui, sigo fazendo o bem pros outros com o que consigo dar de mim.

Geralmente é sorriso. É texto. Só é intocável quando é dança e quando é poesia.

Mas pra você ... eu me dou inteira. O tocável e o metafísico. E você nem sabe.

Leminski disse pra você pensar e te parecer, ou vou te inventar pela eternidade.

Então pense e te (a)pareça, porque não ouso te inventar . Acredite, nem sequer chegaria aos pés da realidade, pela primeira vez em toda a minha vida..."

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Dezesseis. Dezessete. Mais um. Mais outro. Dois.

Abril é lindo.

Todo dia 16 eu faço mais um ano como bailarina.

Todo dia 16 é mais um mês que conheci quem me dá inspiração para escrever posts como os dois últimos.

Todo dia 18 eu faço aniversário.

Todo dia 29 é dia da dança.

O que eu tenho pra dizer é que tenho orgulho de mim e que me amo.

Sabe, eu costumava ser um pedaço de gente que se perguntava demais e era apaixonada por tudo e tinha vergonha de sorrir, já que os dentes da frente eram separados. O que hoje me faz olhar pra trás e querer me encontrar criança, só pra dar um abraço, é o tanto de vida que cabia entre os intervalos das minhas perguntas, da minha paixão e da minha vergonha.

Agora eu sei. O que me tachava de incomum e até de lerda era a minha solidão, a solidão que eu assumo hoje.

A verdadeira, como Clarice sabe bem. Aquela que só quer o bem dos outros, a solidão cuja quietude é um não-saber imenso ... você fica tão grande que não sabe o que fazer consigo e fica ali. Parada. Achando tudo lindo. Achando lindo ou morrendo de dor. Os dois quando dá sorte ... pra se encontrar em algum momento e ir dançar tudo mais tarde. Ou escrever. Os dois quando você se encontra e se perde e te cabe.

Eu me perdi.

E por ter me perdido, a minha quietude é livre. Minha liberdade é quieta. O meu não-saber é puro eu.

O orgulho que tenho de mim está na vez que eu não contei pro meu pai do meu primeiro namorado, porque me dei conta do amor que sentia (pelo pai, é claro, eu tenho cara de quem ama quem interpreta silêncio como depressão?), que qualquer situação que poderia fazê-lo sentir um pouco menor, eu chutei do mundo dele.

Está no dia em que comecei a dançar ballet sem ninguém saber. Porque a força que eu adquiri, a cada dia em que eu rodopiava quando não devia e morria um pouco enquanto poderia estar vendo tv, fez o peso de eu não ter nascido para ser mais uma, uma alegria enorme.

Está em tudo que eu faço só pensando no meu sonho, enquanto eu vou catando e esbarrando em pessoas pelo caminho até me tornar frações de cada uma.

Gosto de mim porque sou Nathália e agora tenho dezessete. Eu mordo, abraço, choro de rir e minha vida é um grande musical amelístico, cheio de bolinha de sabão e chocolate, não só por eu ser devota do que eu fui , mas porque nunca deixei de ser.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Atemporalidade - carta II

"Dreamland, o mês é o mesmo e choveu ontem. Acho que a aula é de Física. Parece que um campo elétrico é capaz de realizar trabalho...

Te ver de novo foi dúbio.
Há tempos não segurava o choro daquele jeito, há tempos não me perguntava se as lágrimas seriam de desespero ou êxtase da felicidade pura.
Nunca um abraço me doeu tanto e "tanto", é uma intensidade que nunca havia sido perfeita para descrever minha espera por um abraço. Agora é insuficiente.
Você existe, aí, do seu jeito. Respira, dorme e qualquer esforço seu me prende. Quero ficar na sua vida para sempre, seja como for. Como a menina que por vezes tenta esquecer que você vive e não consegue achar, além da sala de dança, espaço mais lindo para cabê-la que seus olhos. E seu meio-sorriso. E seus momentos de silêncio.
Você existe aí e do seu jeito, assim como eu, é um poço de dúvidas. É perdido e é minha perdição. Por mais que as chances de você admitir, num estado sóbrio, ao menos, que quer me tocar de novo sejam nulas... obrigada por me deixar te olhar.
Olho e me apaixono pela suaexistênciadoseujeito, seu sono, sua respiração e seus erros.
Olho e não te vejo por inteiro, Eu do Lado Avesso. Mas todo e cada pedacinho seu... eu amo."


sexta-feira, 6 de abril de 2007

Atemporalidade - carta

"Dreamland, algum dia do mês do meu aniversário, era pra ser outono e o ano não importa.

Já posso dizer que te amo, embora quisera não poder.
Deveria ser igual das outras vezes: enquanto tenho você perto faço o oposto, e quando tenho longe, não faço nada.
Não é.
Sabe, eu queria te agradecer. Não simplesmente porque você existe nesse mundo e no meu, mas por você ter me ensinado a amar da forma mais solitária que experimentei. Da forma mais quieta. Toda a minha indiferença nas suas provocações não é tristeza, não é dependência, é simplesmente uma manifestação do meu desejo de te deixar ir. Eu quero que você vá e receba todo tipo de intensidade que se conhece, só para você voltar maior, tão grande que vai querer me contar sua vida, finalmente.
Eu te amo da forma mais quieta porque tudo que bastou para eu me apaixonar coube em alguns segundos... e você nem disse nada, só olhou. Eu te amo quando não entendo o tempo e quando tudo o que eu espero, espero só de mim.
Não quero parar. Imagine que nada do que me transmite é doce demais, é só um ponto de interrogação, reticências, talvez, e isso é suficiente para querer te abraçar uns quinze minutos.
Agora te vejo nas melodias, nas letras, nos roteiros, no ócio, no álcool e na história do Pierrot e da Colombina. E o que eu queria mesmo... ah, era te ver por inteiro, Eu do Lado Avesso."

sexta-feira, 30 de março de 2007

Era só mais um dia qualquer e eu estava lá, na sala de espera da médica, enquanto imaginava o alívio instantâneo que seria me trancar numa geladeira.

E eu peguei uma dessas revistas nas quais o homem quer mostrar inteligência e acaba, nas entrelinhas, mostrando toda a sua falta de tudo. E enquanto ia me tornando mais niilista e entediada a cada página, vi aquela fotografia pequenininha no canto esquerdo.

Instantâneo foi o meu envolvimento.

O momento exato foi captado, o momento em que um homem de uns cinqüenta anos chorava como uma criança após ser verbalmente insultado por um político, simplesmente porque exerceu seu direito (e por que não prazer?) de discordar.

Sabe quando você sai na rua e tudo é movimentado e normal e bagunçado, até que alguma forma de vida merece sua atenção e, de repente, você se pega analisando cada detalhe ao redor dela e vendo a grandeza daquele pequeno pedaço de nada?

Era isso. A fotografia era um pedaço lírico de vida medíocre. Paralisada. E quando eu aproximava a página de mim, dava para ver as lágrimas se formando nos olhos dele, verdes. Na verdade eu não sei, mas eu gosto da idéia de seus olhos serem verdes. E mais que disso, eu gosto da idéia de alguém que sobreviveu a mais da metade da vida tendo alguma emoção para expressar por inteiro sem se desculpar.

Foi nisso que tenho pensado desde esse dia, na nossa fragilidade. Em como alguém que já sentiu quase toda intensidade de dor e perda se doou tanto para uma pessoa que também é um pedaço de nada, mas minúsculo, do tamanho de um quark.

Ficou claro para mim o que separa um recém-nascido de um adulto: a fragilidade do recém-nascido existe porque existe, e a fragilidade do adulto é cansaço.

Fiquei me perguntando se as coisas são como são por causa daquelas horas nas quais deveríamos ter nos calado e cuidado do próprio estado de alma, ao invés de nos deixarmos ser detestáveis. Quis apagar muitos dos meus diálogos.

Desejei que nunca me perguntassem mais nada, para que não me dessem tão de graça a chance de assassinar a auto-estima alheia. Desejei parar de achar e não acabar com o que eu não aniquilei quando não calei a boca. Desejei o máximo de silêncio possível o tempo todo.

O que me matou foi o fato de aquela fotografia estar ali, crua e intensa, e a reportagem só falar de quarks.

O que me matou mesmo foi o fato da minha fragilidade ser cansaço, quando sou mais recém-nascida que adulta.

domingo, 25 de março de 2007

Cor-de-rosa. Bebida. Talvez. Vermelho. Sexualidade. Vadia. De novo. Memórias. Areia. "Ela e o mar".

Tudo de que me lembro é de quando comecei a chorar ontem.
Eu me lembro porque durou além das lágrimas. Olhe agora, por exemplo, não há lágrimas e estou chorando.
Deus sabe pelo que estou passando e ele (ela? aquilo?) é provavelmente o único. Nem eu sei.
Sou tão fascinada com o que não compreendo que não paro de me olhar no espelho a toda hora. Não posso tocar o que vejo e talvez eu tema o que eu vejo, mas sinto a sua profundidade.
E me apaixono pela minha vida. A minha própria.
Quero dançar para morrer depois. Ler para morrer depois. Acordar para morrer depois. E todas essas pequenas mortes diárias deveriam me deixar num estado absoluto de morbidez, e me deixam em êxtase no lugar. Ou fora do lugar?
Eu morro para explodir depois, para morrer depois e explodir até a morte. O que deveria ser oposto anda junto, não só a falta de existência e o etéreo, como também tudo no meio deles.
E sabe qual a graça? Eu não sou o meio de nada. Sou o limite. E meu limite está cheio de "meios" que deveriam se contradizer, quando também são metades uns dos outros.
Meu limite é incompleto, apesar de eu estar, literalmente, tão cheia de tudo até a alma e seu desequilíbrio.
Estou tão viva que sou um fantasma.

terça-feira, 20 de março de 2007

Verdadeira Solidão

Enquanto procuram respostas nos deuses, te procuro e te acho, Clarice.

Foi te encontrando que vi que a solidão dele não era solidão. Era o auge da patética auto-afirmação misturada no mais alto grau de frieza, medo e dúvida. É isso, era o extremo... do que eu tento fugir.

O extremo do meu alcance, ao que tudo indica, está é em você. No espelho, naquele filme também... mas em você da forma mais encantadora, porque foi concreta. Da maneira mais intocável e subjetiva desse mundo, você existiu, respirou e mais que ter sentido minha ambigüidade, você foi a minha ambigüidade.

O que eu estou aprendendo é a me desapegar, e a ser tão devota de mim que a minha solidão, a verdadeira, ganha causa. É causa. Causa.

Quando tentam me tirá-la em algum momento, eu também morro. Mas não porque ela é a única coisa a que ainda me apego, e sim porque ela sou eu.

Acho que você também é.

A ambigüidade, meu Buda, minha felicidade clandestina, meu movimento, minha santidade. Poesia. Profundidade.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O que torna tudo tão complicado é que as pessoas existem.
E como se não bastasse, cada uma delas carrega todo um universo dentro de si.

domingo, 4 de março de 2007

Pós-eclipse

Mais perigoso que lembrar de você por causa da lua, é me ver em você a ponto de interpretá-la como um detalhe cruel demais, quando contemplado por uma pessoa só.
Aliás, mais que isso só temo o fato de me ver em você a todo o tempo agora a ponto de quase esquecer que existe lua.
Queria fazer parte da sua vida por completo, pro seu medo me fazer mais sentido.
E queria fazer parte do seu passado, pra dizer tudo sem receio, e dizer que eu deixo você gostar de mim.
Porque deixo. Deixo, e às vezes até preciso.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

"Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

O que doeu mais foram aqueles segundinhos em que e a gente se olhou sem falar nada. Porque eu pude memorizar cada linha do seu rosto prá depois saber que eu realmente poderia ter te amado. Eu juro.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Depois de um tempo eu não sei se você se sentiu obrigado a se apaixonar por mim. Ou se só dizia. E se foi obrigado a dizer porque sabia que o que eu sentia era forte demais. Me conta seu jeito de se importar? É que na minha visão de menininha ele é muito frio e eu não compreendi sozinha...
Você pega os meus planos, distorce e os torna seus e nem sabe. E além de acreditar cegamente que sempre foram seus, você também não sabe que eu existo. Quer que eu te mostre que dói ainda que não devesse?
E você desapareceu, e eu mudei. Só não mudei no quesito de só poder contar comigo mesma. Comigo em mim e comigo em outras pessoas. Outras poucas.
Espero que uma delas possa te odiar, me devolver as palavras que eu te escrevi e pisar em cada peculiaridade sua.
Eu em mim não posso, não quero sujar as sapatilhas.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Divagações da semana

- Precisar de alguém assim dói, menino. E eu nem sabia.
- Eu odeio que tentem me copiar ouvindo as minhas músicas e vendo meus filmes tentando pregar o que eu acho. Vocês nunca vão entender, idiotas.
- Ó, meu filósofo do dia 19, você passou no vestibular?

Tô viciada naquele remédio e to ficando muito mais chata.
Morram.

sábado, 27 de janeiro de 2007

“É, fazia tempos que não escrevia em papel. Nesse momento, to estreando minha caneta nova e minhas folhas que cheiram chocolate, tentando entender porque os bichos estranhos da Sanrio não têm boca enquanto assisto Amélie pela segunda vez em 48 horas. Um dia qualquer, no colégio, o estresse do último ano quase vai me fazer esquecer de quem sou e eu vou achar esse rascunho no caderno. Vou me lembrar de mim e sorrir uma meia hora. Creio que meu subconsciente sabe disso e eis a razão pra eu estar escrevendo à moda antiga... agora to me chutando por ter revelado o mistério por trás. Então, que me permitam agarrar à chatice e achar que escrevo por pura preguiça de parar o filme mesmo.
Finalmente entendi o Cinema, ainda que não fosse preciso. Entendi a liberdade nele, e enlouqueci por ter sido a Arte em que mais demorei pra ver. É um mundo em que as pessoas só precisam saber o que basta para torná-las um todo. Não encontro estereótipos, só a beleza. É belo porque tudo fala, tudo combina e tudo comunica, porque o não-importante não importa, de fato. E é tudo tão belo que o que separa a ilusão da realidade é uma linha tênue que te permite orbitar os dois opostos simultaneamente.
Daí, o mundo pertence a algum louco por algumas horas. A essência desse louco também basta para o decorrer os fatos e para as conseqüências, daí até a dor dói menos: cabe em quem sente, e é auto-explicativa.
Queria eu também caber em mim.”

domingo, 21 de janeiro de 2007

Eu devia parar de mandar Pablo Neruda para todos por quem eu me apaixono.
Aí eu poderia guardar tudo pra mim e sentí-los através de motivos que fossem só meus.
Pior que falam demais prá se restringirem a enfeitar a primeira página da agenda até que algum curioso me pedisse prá ler.
Sei lá porque to escrevendo sobre isso. Achei o post passado tão sem nexo que precisava escrever de novo... imaginem que eu comecei a escrever aquilo no auge da inspiração, toda tomada pelo conceito de "beleza" que o cinema ("enquanto arte", eu lembro ter dito) falava em mim.
Daí comecei a ficar chateada. Não compreendo nunca a minha mania ridícula de achar que todo mundo que me ama tem que adivinhar meu estado de espírito, é triste e patético.
E acabei em lágrimas copiando os poemas dele na agenda. Talvez tenha sido por isso.
Sabe do que eu lembro?! Da última vez que eu amei. A cada dia do mês que ele completava mais um tempo na minha vida eu deixava um poema de Neruda, começando por:

“Tu eras também uma pequena folha
Que tremia no meu peito
O vento da vida pôs-te ali
A princípio não te vi: não soube que ias comigo
Até que tuas raízes
Atravessaram meu peito,
Se uniram aos fios do meu sangue,
Falaram pela minha boca,
Floresceram comigo.”


...Não durou muito, mas não é isso que importa hoje. É o poeta por si só.
Suas “lágrimas sórdidas”, além de ele provavelmente ter sido a única outra pessoa do mundo que viu magia em contemplar os pés dos outros. E que sofreu exatamente a minha ambigüidade. A única que soube me mostrar alegria e silêncio da mesma forma, como sinônimos, como se um fosse causa do outro e como um SENDO causa do outro, por fim. Que conseguiu personificar a Poesia ainda melhor que Florbela quase que afastando de mim o medo de escrevê-las. É, eu tenho medo de escrever poesia porque minhas poucas linhas sempre dizem o contrário pra quem não me ama... e quem me ama não adivinha meu estado de espírito... as linhas não diriam nada. E sabe o que mais?! Neruda também não me amava. Mas adivinhou boa parte de mim quando escreveu Pedras Antárticas e quando acrescentou “uma canção desesperada” ao título do livro.
Esse ano eu abri com

“...E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua
Hangares cruéis que se despediam
Perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo
Caído, abandonado e decaído
Tudo era inalienavelmente alheio,

Tudo era dos outros de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas invadiram o outono.”


A diferença? O pouquinho que eu cresci ontem tornou o motivo desse poema plenamente meu e meu, teve certeza de que é passageiro mas não se importou.
O motivo, por sua vez, ficou concreto, invadiu e hoje não preciso voar pra mostrar sentimento. Respirar já basta.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Por que eu sofro prá escrever textos coerentes?
Porque eu me perco nas minhas próprias filosofias.
E horas e horas de divagações sobre beleza, estilo de vida e tudo que eu fui ainda não são suficientes para prever reações. Não sei quando vou me morder de ciúmes e não sei quando vou consumir altruísmo. Nem o quanto vai doer quando tiver consciência do que eu preciso.
Tenho quase certeza de que to triste.
E queria voar pra te mostrar.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Soundtrack: Portishead, “Beautiful”

É, não que eu tenha muito o que dizer. Mas talvez viver uma vida sem sentido por dois meses não seja tão ruim assim, é deveras menos complicado respirar sem filosofia, quotes de filmes que me fazem sentir menos sozinha e sem princípios. A ironia é que eu me sinto menos livre, quando deveria ser o contrário.
As horas mortas me deixam tão sem o que fazer que me preocupo com o que normalmente não me preocuparia. De alguma forma passei a ligar pro guarda roupa todo bagunçado e pro sapato que eu não acho e todas essas coisas que não contribuem em nada pro que eu sou. Minha dualidade se complica tanto que eu me mordo de ciúmes quando uma das pessoas que mais amo finalmente achou alguém pra desencalhar e eu deveria estar muito muito feliz. E tá se matando de chorar agora porque ela deixou bem claro que escolheu o outro ao invés de você e normalmente a minha quase-arrogância mandaria ele se matar, com vontade. É que eu fico possessiva também, queria a pessoa pra mim, queria todas como se alguma me pertencesse. E eu me sinto sozinha mesmo com pessoas muito queridas dizendo que me amam todo dia. Talvez eu tenha me perdido tanto no tédio que já já vou cobrar muito mais “eu te amos” delas só pra não derreter. E cobrar amor é patético. Nas férias eu sou patética porque faço parte do mundo como um todo, sem resumi-lo a nada nem ninguém e é tão monótono porque em um certo ponto do meu nada, eu espero que alguém resumisse o seu mundo em mim. A verdade é que todo mundo tem mais o que fazer.
De qualquer forma, obrigada Otávio, que te abraçar ontem me fez sentir mais viva.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

O mais estranho quando você sente que está crescendo é ver que você está se adaptando.
Não dói.
Eu passei tantos anos imaginando o que eu iria me tornar que estou pronta... e não dói!
Vou ser testada. O ano em que vou ignorar tudo que os que acham me conhecer falam prá ir embora dançar e estudar Filosofia. Em que vou provar pra mim mesma que aquela bobagem de que na vida não se faz o que quer foi criado por uma tia feia e sem emoção que morava numa caixinha escura.
Eu cresci tanto que passei a virada do ano bebendo e fazendo todas as idiotices dos programas da MTV americana que eu achava o máximo, ao invés de passar assistindo algum musical idiota nostálgica, pensando no que vivi.
E eu choro, porque parte de mim FICOU aqui em casa. Assistia e cantava, abraçando cada momento que me fez ter orgulho do que estou me tornando.
Eu escrevi uma carta de amor. Nunca tive resposta mas também não tive medo.
Eu ouvi Eu te Amo de todas as pessoas que beijei na vida.
Eu guardei as coisas mais preciosas do mundo numa caixinha. Um dia vou achá-la por trás do azulejo e me sentir incrivelmente idealista e completa.
Eu arrumei meu mural de fotos, finalmente.
Recebi um olhar que me tirou o fôlego.
A amiga de mais de dez anos que jurou que sempre estaria comigo se mudou para longe e não me avisou e eu acho que entendi porque.
Tirei minhas bonecas do armário e arrumei todas de novo.
Baixei a discografia do Smiths. Me apaixonei numa prova de vestibular. Não sabia o nome dele. Viajei sozinha. Comprei um vestido de zebrinha. Perdi ônibus e sapateei no meio da rua. Mordi a Sílvia. Apertei o Otávio. Me casei com o Dan, com o Pedro, com a Ju e com o Marcus. Aprendi sobre mim com a Camila.
Me vi em tanta coisa até não ter mais dúvidas. Poemas sem sentido, filmes água com açúcar, gente incompreendida. Todas eram arte.
Que eu seja arte prá sempre. E esse ano... E tudo que me cerca.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Eu vi o mundo mas preferi o meu.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Soundtrack: Adriana Calcanhotto, “Esquadros”

voltando pra mim mesma e escrevendo porque preciso...

E para tal, será preciso ignorar o post em que “pessoas são só pessoas”.
A vantagem-mor de quando se conhece tanta gente pela internet é que quando se tem a chance de vê-las esse fascínio te toma e te deixa tão... sem nome. A idéia de que você pôde agarrar cada pedacinho delas. O quanto é engraçado só olhar de longe e por um segundo não ter consciência de quantos pedacinhos são formadas.
E a idéia de que foi assim que ganhei amores, amigos, pessoas de quem preciso e pessoas que em certo ponto me dedicaram trechos de suas vidas, é isso que me fez voltar...
A verdade é que pessoas são fascinantes.
Algumas cabem num potinho e algumas são tão delicadas que te deixam cuidar delas quando se é você mesmo. Algumas são espelhos, futuro e passado e quando a gente aprende a conviver com essas aí nada é assustador demais. Porque se for, a gente muda estilo de vida, orientação sexual, dieta, companhias, curso da faculdade, religião, de filme preferido, de cor de cabelo e de endereço de blog .
O fato é que eu acho que aprendi essa convivência. Parei com aquela mania de eleger alguma fase da minha vida como a melhor de todas. Parei de querer me chamar Clementine, ter o cabelo azul e querer apagar a memória, porque o lado que pegou um trem até Viena para amar de todas as formas em um dia sabe que seria como dançar sem música. Incompleto e ineficaz.
E agora eu posso viver tudo de novo a hora que quiser. Posso escolher quem vou ser pra sempre e não quero ser outra pessoa.
O que faltava?... Me apaixonar. Por tudo.
Estou me apaixonando devagar e urgentemente.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Soundtrack: Everything But The Girl, "Missing"

E então, nas minhas semanais maratonas de filme me vi em Y tu mamá tambien, na personagem de Maribel Verdú. Não porque já viajei de carro com o intuito de dormir com o Gael Garcia Bernal (isso eu concretizo depois) mas porque... todo esse ponto de interrogação ambulante que eu sou hoje vem de eu ter me calado tanto tempo.
O ponto de exclamação ambulante que já estou me tornando é conseqüência de eu ter cansado disso, e agora falar tudo. Tudo ou boa parte. Fazer tudo ou boa parte.
Estamos na torcida para que eu não me resuma a pontos e riscos e seja uma pessoa que possa transcender pontos e riscos. E esperamos que eu não vire um livro aberto porque ele seria só “arte pela arte” e não faria sentido algum... e de falta de sentido o mundo já basta por si só.
Acho difícil por enquanto as duas coisas... O máximo de emoção que tive nessas férias foi quando quis pular na cama elástica do parque de diversões e o tiozinho disse que não e eu fiquei bem puta da vida. E isso SÃO riscos... voillà: ¬¬.
E toda pessoa que tenta saber demais de mim eu bloqueio no msn.
Ai que tédio.